Eu estava indo buscar meu filho no colégio, quando de repente, um jovem
rapaz caiu no meio da avenida. E junto com ele, uma bicicleta cheia de sacolas.
Um carro por pouco não o pegou. Mas algumas de suas sacolas foram esmagadas e
outras arrastadas. O motorista até tentou parar, mas, rapidamente, uma turma
furiosa se formou e ele arrastou os pneus e foi embora.
O ciclista ficou meio atordoado. Mas não houve nada grave com ele, além
de algumas escoriações. Porém, assim que o levantaram do chão, ele começou a
gritar:
― Cadê meu bebê? Cadê meu bebê?
As pessoas, que o cercavam, ficaram perplexas. Nenhum bebê fora visto
durante o acidente. Mas, mesmo assim, procuraram por todos os lados. Porém, o
suposto bebê, não foi encontrado. Contudo, um dos pedestres disse ter visto
tudo:
― Eu vi... Pobrezinho! Foi arrastado pela roda traseira do carro...
O ciclista ficou desolado. Jogou-se no chão aos prantos. Dizendo que,
sem o seu bebê, ele preferia morrer. Não demorou para começar um tumulto. Foi
uma confusão danada. Um corre-corre dos diabos. Não sei de onde surgiram tantos
pneus e cadeiras quebradas, que formaram uma barricada e pararam o trânsito.
Buzinas nervosas, motoristas irritados e protestantes irados. Homens,
mulheres e crianças agitavam panelas, vassouras, pedaços de panos... E atearam
fogo na barricada. Enquanto isso, o ciclista continuava lá; deitado no meio da
rua, chorando e delirando:
― Meu bebê... Meu bebê...
Sirenes soaram. Três carros da polícia chegaram para apaziguar os
ânimos. Mas não demorou muito e já havia: dois detidos no camburão, três
algemados no chão, mulheres e crianças sufocadas com bombas de fumaça.
O fogo da barricada foi contido e a pista liberada. Mas os motoristas,
enfurecidos, passavam dizendo injúrias a quem já não podia dizer mais nada.
Por fim, chegou a ambulância para socorrer o causador de todo aquele
balburdio. Não faltaram mãos para ajudá-lo. Todos muito preocupados. Juntaram
os restos das sacolas ao seu lado. Era o mínimo que podiam fazer. Já que estava
ausente o corpo do atropelado.
Mas, assim que os paramédicos começaram a examiná-lo, ele abriu os olhos
e sentou-se na maca, gritando:
― Cadê meu bebê? ― perguntou, ainda tonto.
Passou os olhos ao redor e viu as sacolas salvas do acidente rodoviário.
Retirou de uma delas uma garrafa de cachaça pura e destilada. E deu uma golada
que levantava até defunto.
― Ah, meu bebê, pensei que tivesse perdido você! ― disse, lambendo os
beiços.
Depois, abraçado à dita cuja, com um sorriso no rosto, jogou-se de lado
na maca da ambulância, já roncando.
E foi assim que surgiu mais um conto. Mas se ele é verdadeiro... Isso eu
não conto!
Jussara Pires