terça-feira, 28 de novembro de 2017

OS OLHOS DE SARA

 Os olhos de Sara eram lindos! Eram verdes e grandes. Pareciam duas pedras brilhantes. Mas não eram confiáveis.

      Seus pais haviam morrido em um acidente, no mesmo acidente em que ela perdera a fala. E muito mal gesticulava sinais que se fazia entender. Os médicos disseram que fora o trauma. Então, Sara foi levada para uma casa de crianças órfãs. E ficaria lá durante a primeira infância, à espera de ser adotada. 

     Ela tinha dez anos. Seus cabelos eram negros e tão compridos que lhe cobria a anca. Mas ela vagueava pela casa, com os cabelos emaranhados, assustada como se fosse um fantasma.  Já havia passado por vários especialistas e todos foram unânimes: Sara além de muda era altista. E apesar de ser uma criança de traços agradáveis, a assistente social tinha dificuldade para achar pais adotivos para ela; pois, para todos, ela era uma criança problemática. 

  Andava pelos cantos, muda e às vezes surda. Pois, por mais que a chamassem, nem sempre respondia.

        — Tem certeza de que essa menina também não é surda? — perguntavam os pretendentes a pais adotivos à assistente. Quando, inutilmente, a chamavam para que os conhecessem. 

        — Eu tenho minhas dúvidas — respondia a assistente inconformada por nunca conseguir um lar para Sara. 

      As voluntárias, que cuidavam das crianças, quando por ventura a chamavam: uma, duas, três vezes, também já tinham reparado naquele olhar parado, assustado, que ela lançava. Ou olhava para o vazio e lá fazia morada.  Às vezes, ela até sorria sozinha, gargalhava. E quando a perguntavam de que tanto ria, ela gesticulava dizendo que não era nada.

      Mas a mente de Sara estava confusa, ela não entendia porque só ela via o que via: as sombras bruxuleando, os pequenos enfeites que criavam vida, os talheres que cresciam pernas e as flores que cantavam e sorriam para ela. Até as paredes pareciam sair do lugar; ás vezes, Sara andava se segurando, pois não confiava onde pisava: o chão e o teto não eram firmes, balançavam, deixando-a tonta. Até as fechaduras das portas pareciam falar; só que ela não as entendia. As maçanetas giravam sozinhas, abrindo portas. Tinha horas que ela ria e em outras, ela chorava; Sara vivia assustada. Mas ninguém sabia o que se passava dentro da cabecinha dela. Tudo o que eles sabiam era que ela era altista e vivia em um mundo particular, só dela. 

     Mas, antes do acidente, Sara fora uma criança normal; até que, um dia, viu um anjo. Ou era um demônio?  Ela não sabia. Só sabia que, o tal ‘mensageiro’ veio para lhe mostrar o que iria acontecer com sua família. E ela tentou de tudo para fazer seus pais desistirem da viagem. Pediu, implorou para que eles ficassem, porque algo de muito ruim aconteceria. Mas, nem um dos dois quis ouvi-la. Então o destino para ambos foi a morte. E Sara viu seus pais morrerem, duas vezes... Era para qualquer um enlouquecer.

      Depois do acidente Sara se fechou por completo, como uma concha. E nunca mais disse uma palavra. Porque as pessoas não acreditavam nela e nem em que os seus olhos podiam ver; Eles não viam mais as cores, a alegria ou a beleza; só viam tristezas, as dores e a escuridão escondida dentro dos peitos das pessoas; eles viam seus verdadeiros sentimentos por trás dos falsos sorrisos. Viam suas verdadeiras intenções por trás das boas ações. Viam suas almas, muitas vezes negras, por trás de seus meigos olhares. E por fim, eles viam o futuro: o dia e a hora da morte de cada um; principalmente, de quem ela amava.

     Às vezes, além de surda e muda, Sara também queria ser cega...

     Os olhos de Sara eram lindos, mas não eram divinos, eram amaldiçoados.

Jussara Pires

sexta-feira, 3 de março de 2017

OSSO DURO DE ROER


O amor é cego. E eu comprovei isso bem de perto.

Há algum tempo, meu fiel companheiro partiu, atrás de uma aventura. E, apesar de eu implorar para ele ficar, não quis me ouvir e nem me enxergar. Pois, estava cego... Cego por amar.

Não é preciso nem dizer, quanto me senti frustrada, traída e rejeitada. Principalmente depois de tudo que vivemos, da nossa história e da nossa estrada. Contudo, seu amor por mim chegou ao fim.

O meu fiel companheiro, já não era tão fiel assim. Mas eu superei e juntei os meus pedaços.

Porém, depois de passado um tempo ele apareceu: com o rabo entre as pernas, acabrunhado e pedindo para voltar. É é lógico que eu não quis aceitar; a ferida ainda estava aberta. Contudo, como ainda o amava, deixei-o ficar. Mas não demorou e ele aprontou de novo; dessa vez, desapareceu sem deixar vestígio. 

Procurei-o por todos os lugares: nas esquinas, nas praças e nos becos. E nada! Dei parte na polícia, distribui panfletos; mas ninguém o viu. E já tinha perdido a esperança, quando ele reapareceu; com a cara mais deslava. 

Isso foi a gota d’água! 

É claro que fiquei aborrecida, e quem não ficava? Pois errar uma vez a gente até entende, mas errar de novo! Ah! Já tinha decidido: não queria ele mais, nem pintado de ouro.

Mas quando o vi à porta, cabisbaixo e tristonho, fiquei com os meus olhos rasos d’água. Lembrei-me de um tempo em que eu estava assim: triste, sozinha e desamparada; foi quando nos conhecemos. E foi ele quem cuidou de mim; trouxe-me de volta a alegria, o amor; voltei a sorrir. E foi assim, que ele entrou na minha vida, no meu coração e na minha casa.

Eu sabia que iria me arrepender, porém, resolvi deixar ele voltar. Mas tinha plena certeza de que, se aparecesse outra “aventura”, ele iria sem pestanejar. Mesmo assim, desfiz minha cara amarrada e chamei-o para entrar. Ele pulou e se jogou em meus braços, latindo e balançando o rabo para festejar.


Tenho que admitir, já não sei mais o que faço. Mas dele, tenho certeza, jamais me desfaço. 
  

Jussara Pires


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O ATROPELADO




O que escrever quando não se sabe sobre o quê? Bem, na verdade, assunto é que não falta. Quando menos se espera, uma história brota. Basta ficar atento a alguma coisa inusitada ou não... Para despertar a vontade de teclar e deixar registrado um novo conto. Como por exemplo: Certa vez...

Eu estava indo buscar meu filho no colégio, quando de repente, um jovem rapaz caiu no meio da avenida. E junto com ele, uma bicicleta cheia de sacolas. Um carro por pouco não o pegou. Mas algumas de suas sacolas foram esmagadas e outras arrastadas. O motorista até tentou parar, mas, rapidamente, uma turma furiosa se formou e ele arrastou os pneus e foi embora.

O ciclista ficou meio atordoado. Mas não houve nada grave com ele, além de algumas escoriações. Porém, assim que o levantaram do chão, ele começou a gritar:

― Cadê meu bebê? Cadê meu bebê?

As pessoas, que o cercavam, ficaram perplexas. Nenhum bebê fora visto durante o acidente. Mas, mesmo assim, procuraram por todos os lados. Porém, o suposto bebê, não foi encontrado. Contudo, um dos pedestres disse ter visto tudo:

― Eu vi... Pobrezinho! Foi arrastado pela roda traseira do carro...

O ciclista ficou desolado. Jogou-se no chão aos prantos. Dizendo que, sem o seu bebê, ele preferia morrer. Não demorou para começar um tumulto. Foi uma confusão danada. Um corre-corre dos diabos. Não sei de onde surgiram tantos pneus e cadeiras quebradas, que formaram uma barricada e pararam o trânsito.

Buzinas nervosas, motoristas irritados e protestantes irados. Homens, mulheres e crianças agitavam panelas, vassouras, pedaços de panos... E atearam fogo na barricada. Enquanto isso, o ciclista continuava lá; deitado no meio da rua, chorando e delirando:

― Meu bebê... Meu bebê...

Sirenes soaram. Três carros da polícia chegaram para apaziguar os ânimos. Mas não demorou muito e já havia: dois detidos no camburão, três algemados no chão, mulheres e crianças sufocadas com bombas de fumaça.

O fogo da barricada foi contido e a pista liberada. Mas os motoristas, enfurecidos, passavam dizendo injúrias a quem já não podia dizer mais nada.

Por fim, chegou a ambulância para socorrer o causador de todo aquele balburdio. Não faltaram mãos para ajudá-lo. Todos muito preocupados. Juntaram os restos das sacolas ao seu lado. Era o mínimo que podiam fazer. Já que estava ausente o corpo do atropelado.

Mas, assim que os paramédicos começaram a examiná-lo, ele abriu os olhos e sentou-se na maca, gritando:

― Cadê meu bebê? ― perguntou, ainda tonto.

Passou os olhos ao redor e viu as sacolas salvas do acidente rodoviário. Retirou de uma delas uma garrafa de cachaça pura e destilada. E deu uma golada que levantava até defunto.

― Ah, meu bebê, pensei que tivesse perdido você! ― disse, lambendo os beiços.

Depois, abraçado à dita cuja, com um sorriso no rosto, jogou-se de lado na maca da ambulância, já roncando.


E foi assim que surgiu mais um conto. Mas se ele é verdadeiro... Isso eu não conto!

Jussara Pires