Calor, e o
suor descendo por meu rosto. O braço vinha cansado de tanto sustentar meu
corpo, que sacudia de um lado para o outro no meio do veículo.
Uma mulher
passou, deixando para trás a bolsa, ou melhor dizendo: a mala; que recebi no
meio do peito e desequilibrei. Ouvi o resmungo de uma idosa sentada atrás de
mim:
― Meu pé,
miséria!
Pedi desculpas. Um tabuleiro acertou as
costas de um homem que estava ao meu lado:
― Está
cego, peste? ― gritou ele.
― Foi mal,
chefia! Leva uma balinha? ― falou o rapaz, com o tabuleiro.
― Balinha? Para o inferno com tuas
balinhas! Ainda sujou minha roupa, infeliz!
Amaldiçoei
aquela vida de peão que eu levava e ter que enfrentar todos os dias os mesmos
dissabores. Sonhava conseguir um lugar ao sol. Bati no peito só para confirmar
a presença do bilhete da loteca que repousava em meu bolso. Iria enfrentar uma
fila dos diabos, mas teria que valer a pena. Sorri! Fechei os olhos por um ou
dois segundos, encostei a cabeça no braço pendurado e no balanço do ônibus,
adormeci...
Como um
bêbado, perdi o equilíbrio em uma freada mais brusca. Despertei do meu estupor,
olhei para o relógio em meu pulso: "droga, atrasado de novo!". Já
estava no ponto em que eu iria descer. Atravessei as portas do edifício
Advogados Pai & Filhos, onde eu trabalhava, no segundo andar, no setor
de cobranças. Lidava com enormes quantias em dinheiro, que passava por minhas
mãos, antes de serem encaminhadas para as contas dos seus legítimos donos.
Tanto dinheiro e eu vivendo em uma pendenga desgraçada. E por mais que
trabalhasse não conseguia um aumento ou uma promoção. O chefe era um ranzinza,
unha de fome. A única coisa que eu conseguia com ele era mais trabalho.
Sonhava ganhar na loteria, que naquela
semana estava acumulada. Peguei todo o resto do dinheiro do mês para jogar.
― O chefe está
zangado, é a terceira vez nessa semana que você chega atrasado. Tá querendo
perder o emprego, irmão?
― A culpa é dos
políticos que não fornecem uma melhor infraestrutura de transporte para os
cidadãos.
― Se liga! Todo
mundo aqui rala igual e chega cedo, só você acha que pode ter mais privilégio?
Vai acabar dançando, malandro! Depois não diga que não te avisei! Toma, pega a
papelada e vá para sua mesa meter as caras. O chefe quer tudo pronto até o fim
do dia, falou?
― Merda! Tudo
isso? Poxa, cara, esse mané está tirando meu couro! Estou fazendo o trabalho de
três e não recebo nada a mais por isso!
― Agradeça estar
empregado, meu irmão, e fazendo trabalho de três. "Eles" foram postos
para fora para garantir seu emprego. Pense nisso!
― Eu não fico
aqui por muito tempo ― bati no bilhete em meu bolso ― Aqui está a minha
liberdade, é hoje! Esse fim de semana eu fico rico, e nunca mais irei trabalhar
para filho da puta nenhum! Comprarei uma mansão, viajarei o mundo todo, terei
belas mulheres, um lindo carro e muitos empregados. Não vou viver essa vida de
merda, ganhando salário de fome e pegando ônibus com um monte de gente suada, a
vida toda. Comer feijão com arroz todos os dias, sem carne? Eu não nasci
para isso, cara, eu quero meu lugar ao sol.
― Está bem, vai
sonhando! Mas aproveita e faz seu trabalho direitinho aí, tá? Até ganhar. Para
não ficar desempregado também.
Não bastava ter
que ouvir sermão do chefe quase todos os dias, ainda tinha que ouvir merda do
otário do Zé. Ele até que era um bom sujeito, mas como colega de trabalho era o
cachorrinho do patrão. "Bajulador, filho da p....!"
Peguei minha
papelada e enfiei a cara durante o dia todo, só parei para morder um
sanduíche no boteco da esquina; coisa de meia hora. Durante à tarde, olhava
cada segundo para o relógio. Seria à noite que sairia o resultado da loteria,
eu estava ansioso! E a essa altura, já havia se espalhado, no escritório, que
eu tinha jogado alto. E ainda corria um boato de que eu iria "correr pra
dentro" do chefe, assim que acertasse os números sorteados. E eu nem sabia
disso.
Foi assim que se formou um grupinho perto
da TV do escritório.
Sorrisinhos e
cochichos chamaram minha atenção. Parecia que rolava uma aposta à parte.
Olhares furtivos, uma caixinha rodava de mão em mão. Isso já estava me deixando
puto.
Finalmente,
o sorteio iria começar. E um dos meus falsos colegas resolvera dividir comigo o
que estava acontecendo.
― Olha, a parada
é o seguinte... Estamos divididos em dois grupos: os que não acreditam e os que
acreditam que você acertará pelo menos dois números no sorteio. Nisso rola
grana, e boa! Se você acertar pelo menos dois números, na loteria, terá uma
parte comigo. Mas se você ganhar na loteria, faz um favor, amigo? Acerta um
soco, bem dado, na cara do “Dr. Advogado”, e realizará o sonho de quase todos
nós aqui. Você ganha na loto e a gente ganha com você.
E assim ficou
acertado. O sorteio se tornou um grande evento. Puxei um papel e anotei os
números jogados para que todo mundo pudesse acompanhar o sorteio.
Uma caixa de
cerveja apareceu do nada. Todos estavam eufóricos com a brincadeira, se eu não
ganhasse no sorteio uma boa parte dos funcionários ganhariam uma boa grana com
minha falta de sorte, e se, por outro lado, eu acertasse pelo menos dois
números da loteria, o outro grupo é que ganharia a aposta; mas se eu acertasse
os seis números, eu levaria o prêmio máximo e o direito de socar o inimigo.
A algazarra
aumentou quando anunciaram o início do sorteio. O papel com os números ficou no
centro, junto comigo e todos os demais atentos. O primeiro número sorteado eu
tinha. A galera foi às alturas. Silêncio. O segundo número eu também tinha.
Urros! Assobios! Uma galera já tinha a aposta no papo. O terceiro número... Meu
coração palpitou mais forte! Ele estava ali... O quarto número eu me levantei,
gritei com as mãos trêmulas de emoção! Nem ouvia mais os outros gritando; o
quinto número me abalou de vez, quase arranco o couro cabeludo no desespero. No
calor da emoção gritei a todo fôlego:
― Se eu ganhar,
levo todo mundo comigo! Divido a metade do prêmio em partes iguais para todos,
e abro uma agência onde todos poderão ser sócios!
De repente todo
mundo parou de gritar e olharam uns para os outros. Silêncio total. E com
os olhos vidrados na tela da tv, só se ouvia a respiração acelerada.
Então, saiu o sexto número, e a galera explodiu! Eu fiquei parado sem
acreditar, olhando os números em minhas mãos. Enquanto os caras pulavam e
comemoravam o prêmio que eu tinha ganhado. Eu ainda não estava acreditando e
olhava abobalhado para o pedaço de papel. No meio da algazarra o meu chefe
entrou, queria saber o que estava acontecendo para tanta euforia.
― O que é isso? Virou zona? Ninguém mais
trabalha?
― Poxa, chefe!
Trabalhamos de segunda a segunda, sem folga nem no domingo. Meia horinha para
ver o sorteio e reclama? ― resmungou João.
― Você tem o
topete de me responder moleque? Está despedido!
― Qual é, chefia?
― Marco foi em socorro de João ― Você não pode despedir ele assim, sem uma
razão comprovada?
— Está sentindo
as dores por ele, é? Está despedido também.
Foi nessa hora
que consegui sair do meu estado catatônico, e desferir um soco bem no meio do
olho esquerdo do patrão, jogando-o no chão. A galera foi à loucura, novamente!
Assim que o chefe recuperou a sanidade partiu para cima de mim.
― Vou te
processar por isso e o colocarei na cadeia por agressão! Nunca mais conseguirá
um emprego descente enquanto eu viver!
Eu sorri, um
sorriso tímido, que foi se transformando em algo maior e maior, até atingir em
algo diabólico. Com certeza eu estaria sendo acusado por ter agredido meu
chefe, mas quem estava ligando para isso? Agora eu tinha dinheiro! Não ficaria
nem um segundo atrás das grades. Pagaria os melhores advogados para me manter
acima da lei.
― Vá se ferrar!
― foi o que eu disse a ele, com prazer. O filho da puta não pisaria mais em mim.
Saí pisando
forte, sob aplausos da minha plateia dos novos amigos que consegui com o
dinheiro que ainda nem tinha recebido. Apertos de mão, palmadas nas costas, me
chamavam de Sr., Dr., o escambau! Cadeiras foram jogadas fora do caminho,
um outro jogou para cima a papelada de uma mesa, que virou confete pela janela
aberta. Na loucura da comemoração, eu vi um computador ser jogado na parede e
um cara virando na boca, o que parecia ser, uma garrafinha de cachaça, que ele
trazia escondida dentro do paletó.
A euforia foi
aumentando cada vez mais, até que, na balburdia crescente, ouvi gritarem para
pegar o chefe e dar-lhe uma lição. Mãos apareceram de todas as partes segurando
o homem. Empurrões, encontrões e a turma do deixa disso chegou; e começaram a
discutir.
Eu ainda não
acreditava, observava os acontecimentos como se tudo fosse um sonho. Minha vida
mudaria dali para frente, eu nunca mais pegaria no trampo, nunca mais pegaria
ônibus... Eu tinha ódio de ônibus! Todos os dias... Aquilo era uma tortura...
― Me mostra! ―
pediu Zé.
― O que? ―
perguntei meio que voltando de meus pensamentos.
― O canhoto.
Quero ver com os meus próprios olhos o jogo que você ganhou... Me mostra!
Bati a mão no
peito e enfiei o dedo no bolso da camisa e puxei o bilhete premiado...
Imagina a minha surpresa... Eu não havia jogado!
― Mané, cadê o
jogo? Não diga que esqueceu de jogar essa merda?
Com meus olhos
esbugalhados, finalmente lembrei o que tinha acontecido.
― No ônibus...
Eu dormir na ida para casa e me esqueci de fazer o jogo!
De repente,
todos pararam com a folia para escutar o que eu dizia.
― Como é isso,
cara? Como assim, você esqueceu de fazer o jogo? Você disse a semana toda que
tinha feito essa merda de jogo!
― Desculpe aí,
galera! Eu dormi no ônibus e em vez de ir para a lotérica, acabei indo direto
para casa. E depois de acordar, do balanço do ônibus, acreditei que tinha feito
o jogo. Mas foi apenas um... Sonho!
Jussara Pires