quinta-feira, 28 de junho de 2018

O SINO


Eu era menina quando, pela primeira vez, ouvi o toque de um sino na hora de dormir. Era um toque quase imperceptível, como se uma colherinha batesse levemente em uma taça de cristal, duas vezes. Nessa época, eu deveria ter uns onze anos. Lembro-me bem, que todas as noites eu ficava tensa, esperando o toque do tal sino, logo após apagar as luzes. O coração disparava, meus olhos esbugalhavam e eu ficava apavorada ao constatar que ele tocava mais uma vez.

Filha de pais católicos, não fervorosos, mas católicos, fui batizada dentro das normas da igreja católica. Tive aulas de catolicismo e fiz minha primeira comunhão aos oito anos; tenho fotos desse dia, com um rosário de contas brancas nas mãos. Mas, apesar da minha situação religiosa já definida desde cedo, eu vivia em conflito comigo mesma. Não porque eu tivesse dúvidas da existência de Deus, não era isso, muito pelo contrário, o meu dilema era exatamente porque eu acreditava demais.

A existência do inferno e do céu ficou logo definido em minha mente: ou eu era uma pessoa boa e iria para o céu ou eu era uma pessoa má e iria para o inferno. O diabo me assustava, mas ele não me assustava mais do que o próprio Deus; que ouve e vê tudo o que fazemos ou pensamos e ainda castiga a quem não segue os seus mandamentos. Ele morde e assopra, perdoa ou pune seus fiéis, a depender de sua vontade ou do seu humor do momento.

Uma criança pode sofrer muito com tantas imposições religiosas. E eu queimava no inferno com a possibilidade de ser castigada por Deus, só por ter pensamentos impuros. Já sentia até as chicotadas que iria receber dos demônios ou os castigos angelicais impostos pelo impiedoso.

Para melhorar, minha mãe não era, por assim dizer, totalmente fiel à religião católica ― como normalmente acontece em nossa região, onde há sincretismo religioso ― e por isso, ela também frequentava um Terreiro, e ia ver uma mulher que jogava búzios, e também ia a uma cigana para ler as mãos; pelo menos uma vez por mês. E me levava junto. E em cada lugar que eu ia, era presenteada com um objeto para minha proteção.

Logo, eu tinha todos os motivos do mundo para temer o maldito sino. Pois, com tantas discrepâncias religiosas, afinal de contas, eram anjos ou demônios que protegiam o meu sono? Sofri por anos por não entender a diferença entre as crenças. Eu vivia no limbo por causa da minha formação católica e passava as noites em claro, com insônia, coberta até o queixo, vasculhando o escuro, tentando descobrir o que poderia provocar aquele som. Eu não me mexia, não piscava de tanto medo. Vivia atormentada. Um suplício sem fim.

Um dia, porém, eu me libertei; cansada de me perguntar se eu iria para o céu ou para o inferno quando morresse ― e já morta, por assim dizer, de tanto medo ― tirei todos os colares de santos que levava em meu pescoço, tirei o crucifixo que levava no peito e o rosário que eu levava no bolso. Sem falar, que acabei com as hóstias sagradas das missas dos domingos, e com os patuás, os banhos de folhas, com a água benta, o sal grosso que inevitavelmente, uma vez ou outra, usava para me benzer. Era muita proteção para tão pouca mente. Mas jurei a mim mesma, que não iria mais sofrer por acreditar. Comecei uma vida nova, tirando todo o peso dos meus ombros; virei ateísta. E desde então, e já faz um bom tempo, passei a dormir à noite inteira sem pesadelos. Já não sofro mais com pecados que não cometi. E nunca mais ouvi nenhum som que tirasse meu sono; vivo feliz!

Até hoje. Pois hoje um sino tocou de novo para mim...

terça-feira, 28 de novembro de 2017

OS OLHOS DE SARA

 Os olhos de Sara eram lindos! Eram verdes e grandes. Pareciam duas pedras brilhantes. Mas não eram confiáveis.

      Seus pais haviam morrido em um acidente, no mesmo acidente em que ela perdera a fala. E muito mal gesticulava sinais que se fazia entender. Os médicos disseram que fora o trauma. Então, Sara foi levada para uma casa de crianças órfãs. E ficaria lá durante a primeira infância, à espera de ser adotada. 

     Ela tinha dez anos. Seus cabelos eram negros e tão compridos que lhe cobria a anca. Mas ela vagueava pela casa, com os cabelos emaranhados, assustada como se fosse um fantasma.  Já havia passado por vários especialistas e todos foram unânimes: Sara além de muda era altista. E apesar de ser uma criança de traços agradáveis, a assistente social tinha dificuldade para achar pais adotivos para ela; pois, para todos, ela era uma criança problemática. 

  Andava pelos cantos, muda e às vezes surda. Pois, por mais que a chamassem, nem sempre respondia.

        — Tem certeza de que essa menina também não é surda? — perguntavam os pretendentes a pais adotivos à assistente. Quando, inutilmente, a chamavam para que os conhecessem. 

        — Eu tenho minhas dúvidas — respondia a assistente inconformada por nunca conseguir um lar para Sara. 

      As voluntárias, que cuidavam das crianças, quando por ventura a chamavam: uma, duas, três vezes, também já tinham reparado naquele olhar parado, assustado, que ela lançava. Ou olhava para o vazio e lá fazia morada.  Às vezes, ela até sorria sozinha, gargalhava. E quando a perguntavam de que tanto ria, ela gesticulava dizendo que não era nada.

      Mas a mente de Sara estava confusa, ela não entendia porque só ela via o que via: as sombras bruxuleando, os pequenos enfeites que criavam vida, os talheres que cresciam pernas e as flores que cantavam e sorriam para ela. Até as paredes pareciam sair do lugar; ás vezes, Sara andava se segurando, pois não confiava onde pisava: o chão e o teto não eram firmes, balançavam, deixando-a tonta. Até as fechaduras das portas pareciam falar; só que ela não as entendia. As maçanetas giravam sozinhas, abrindo portas. Tinha horas que ela ria e em outras, ela chorava; Sara vivia assustada. Mas ninguém sabia o que se passava dentro da cabecinha dela. Tudo o que eles sabiam era que ela era altista e vivia em um mundo particular, só dela. 

     Mas, antes do acidente, Sara fora uma criança normal; até que, um dia, viu um anjo. Ou era um demônio?  Ela não sabia. Só sabia que, o tal ‘mensageiro’ veio para lhe mostrar o que iria acontecer com sua família. E ela tentou de tudo para fazer seus pais desistirem da viagem. Pediu, implorou para que eles ficassem, porque algo de muito ruim aconteceria. Mas, nem um dos dois quis ouvi-la. Então o destino para ambos foi a morte. E Sara viu seus pais morrerem, duas vezes... Era para qualquer um enlouquecer.

      Depois do acidente Sara se fechou por completo, como uma concha. E nunca mais disse uma palavra. Porque as pessoas não acreditavam nela e nem em que os seus olhos podiam ver; Eles não viam mais as cores, a alegria ou a beleza; só viam tristezas, as dores e a escuridão escondida dentro dos peitos das pessoas; eles viam seus verdadeiros sentimentos por trás dos falsos sorrisos. Viam suas verdadeiras intenções por trás das boas ações. Viam suas almas, muitas vezes negras, por trás de seus meigos olhares. E por fim, eles viam o futuro: o dia e a hora da morte de cada um; principalmente, de quem ela amava.

     Às vezes, além de surda e muda, Sara também queria ser cega...

     Os olhos de Sara eram lindos, mas não eram divinos, eram amaldiçoados.

Jussara Pires

sexta-feira, 3 de março de 2017

OSSO DURO DE ROER


O amor é cego. E eu comprovei isso bem de perto.

Há algum tempo, meu fiel companheiro partiu, atrás de uma aventura. E, apesar de eu implorar para ele ficar, não quis me ouvir e nem me enxergar. Pois, estava cego... Cego por amar.

Não é preciso nem dizer, quanto me senti frustrada, traída e rejeitada. Principalmente depois de tudo que vivemos, da nossa história e da nossa estrada. Contudo, seu amor por mim chegou ao fim.

O meu fiel companheiro, já não era tão fiel assim. Mas eu superei e juntei os meus pedaços.

Porém, depois de passado um tempo ele apareceu: com o rabo entre as pernas, acabrunhado e pedindo para voltar. É é lógico que eu não quis aceitar; a ferida ainda estava aberta. Contudo, como ainda o amava, deixei-o ficar. Mas não demorou e ele aprontou de novo; dessa vez, desapareceu sem deixar vestígio. 

Procurei-o por todos os lugares: nas esquinas, nas praças e nos becos. E nada! Dei parte na polícia, distribui panfletos; mas ninguém o viu. E já tinha perdido a esperança, quando ele reapareceu; com a cara mais deslava. 

Isso foi a gota d’água! 

É claro que fiquei aborrecida, e quem não ficava? Pois errar uma vez a gente até entende, mas errar de novo! Ah! Já tinha decidido: não queria ele mais, nem pintado de ouro.

Mas quando o vi à porta, cabisbaixo e tristonho, fiquei com os meus olhos rasos d’água. Lembrei-me de um tempo em que eu estava assim: triste, sozinha e desamparada; foi quando nos conhecemos. E foi ele quem cuidou de mim; trouxe-me de volta a alegria, o amor; voltei a sorrir. E foi assim, que ele entrou na minha vida, no meu coração e na minha casa.

Eu sabia que iria me arrepender, porém, resolvi deixar ele voltar. Mas tinha plena certeza de que, se aparecesse outra “aventura”, ele iria sem pestanejar. Mesmo assim, desfiz minha cara amarrada e chamei-o para entrar. Ele pulou e se jogou em meus braços, latindo e balançando o rabo para festejar.


Tenho que admitir, já não sei mais o que faço. Mas dele, tenho certeza, jamais me desfaço. 
  

Jussara Pires


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O ATROPELADO




O que escrever quando não se sabe sobre o quê? Bem, na verdade, assunto é que não falta. Quando menos se espera, uma história brota. Basta ficar atento a alguma coisa inusitada ou não... Para despertar a vontade de teclar e deixar registrado um novo conto. Como por exemplo: Certa vez...

Eu estava indo buscar meu filho no colégio, quando de repente, um jovem rapaz caiu no meio da avenida. E junto com ele, uma bicicleta cheia de sacolas. Um carro por pouco não o pegou. Mas algumas de suas sacolas foram esmagadas e outras arrastadas. O motorista até tentou parar, mas, rapidamente, uma turma furiosa se formou e ele arrastou os pneus e foi embora.

O ciclista ficou meio atordoado. Mas não houve nada grave com ele, além de algumas escoriações. Porém, assim que o levantaram do chão, ele começou a gritar:

― Cadê meu bebê? Cadê meu bebê?

As pessoas, que o cercavam, ficaram perplexas. Nenhum bebê fora visto durante o acidente. Mas, mesmo assim, procuraram por todos os lados. Porém, o suposto bebê, não foi encontrado. Contudo, um dos pedestres disse ter visto tudo:

― Eu vi... Pobrezinho! Foi arrastado pela roda traseira do carro...

O ciclista ficou desolado. Jogou-se no chão aos prantos. Dizendo que, sem o seu bebê, ele preferia morrer. Não demorou para começar um tumulto. Foi uma confusão danada. Um corre-corre dos diabos. Não sei de onde surgiram tantos pneus e cadeiras quebradas, que formaram uma barricada e pararam o trânsito.

Buzinas nervosas, motoristas irritados e protestantes irados. Homens, mulheres e crianças agitavam panelas, vassouras, pedaços de panos... E atearam fogo na barricada. Enquanto isso, o ciclista continuava lá; deitado no meio da rua, chorando e delirando:

― Meu bebê... Meu bebê...

Sirenes soaram. Três carros da polícia chegaram para apaziguar os ânimos. Mas não demorou muito e já havia: dois detidos no camburão, três algemados no chão, mulheres e crianças sufocadas com bombas de fumaça.

O fogo da barricada foi contido e a pista liberada. Mas os motoristas, enfurecidos, passavam dizendo injúrias a quem já não podia dizer mais nada.

Por fim, chegou a ambulância para socorrer o causador de todo aquele balburdio. Não faltaram mãos para ajudá-lo. Todos muito preocupados. Juntaram os restos das sacolas ao seu lado. Era o mínimo que podiam fazer. Já que estava ausente o corpo do atropelado.

Mas, assim que os paramédicos começaram a examiná-lo, ele abriu os olhos e sentou-se na maca, gritando:

― Cadê meu bebê? ― perguntou, ainda tonto.

Passou os olhos ao redor e viu as sacolas salvas do acidente rodoviário. Retirou de uma delas uma garrafa de cachaça pura e destilada. E deu uma golada que levantava até defunto.

― Ah, meu bebê, pensei que tivesse perdido você! ― disse, lambendo os beiços.

Depois, abraçado à dita cuja, com um sorriso no rosto, jogou-se de lado na maca da ambulância, já roncando.


E foi assim que surgiu mais um conto. Mas se ele é verdadeiro... Isso eu não conto!

Jussara Pires

domingo, 5 de julho de 2015

SONHANDO ACORDADO


   
Calor, e o suor descendo por meu rosto. O braço vinha cansado de tanto sustentar meu corpo, que sacudia de um lado para o outro no meio do veículo.

Uma mulher passou, deixando para trás a bolsa, ou melhor dizendo: a mala; que recebi no meio do peito e desequilibrei. Ouvi o resmungo de uma idosa sentada atrás de mim:

― Meu pé, miséria!

Pedi desculpas. Um tabuleiro acertou as costas de um homem que estava ao meu lado: 

― Está cego, peste? ― gritou ele.

― Foi mal, chefia! Leva uma balinha? ― falou o rapaz, com o tabuleiro.

― Balinha? Para o inferno com tuas balinhas! Ainda sujou minha roupa, infeliz!

Amaldiçoei aquela vida de peão que eu levava e ter que enfrentar todos os dias os mesmos dissabores. Sonhava conseguir um lugar ao sol. Bati no peito só para confirmar a presença do bilhete da loteca que repousava em meu bolso. Iria enfrentar uma fila dos diabos, mas teria que valer a pena. Sorri! Fechei os olhos por um ou dois segundos, encostei a cabeça no braço pendurado e no balanço do ônibus, adormeci...

 Como um bêbado, perdi o equilíbrio em uma freada mais brusca. Despertei do meu estupor, olhei para o relógio em meu pulso: "droga, atrasado de novo!". Já estava no ponto em que eu iria descer. Atravessei as portas do edifício Advogados Pai & Filhos, onde eu trabalhava, no segundo andar, no setor de cobranças. Lidava com enormes quantias em dinheiro, que passava por minhas mãos, antes de serem encaminhadas para as contas dos seus legítimos donos. Tanto dinheiro e eu vivendo em uma pendenga desgraçada. E por mais que trabalhasse não conseguia um aumento ou uma promoção. O chefe era um ranzinza, unha de fome.  A única coisa que eu conseguia com ele era mais trabalho.

Sonhava ganhar na loteria, que naquela semana estava acumulada. Peguei todo o resto do dinheiro do mês para jogar.

― O chefe está zangado, é a terceira vez nessa semana que você chega atrasado. Tá querendo perder o emprego, irmão?

― A culpa é dos políticos que não fornecem uma melhor infraestrutura de transporte para os cidadãos.

― Se liga! Todo mundo aqui rala igual e chega cedo, só você acha que pode ter mais privilégio? Vai acabar dançando, malandro! Depois não diga que não te avisei! Toma, pega a papelada e vá para sua mesa meter as caras. O chefe quer tudo pronto até o fim do dia, falou?

― Merda! Tudo isso? Poxa, cara, esse mané está tirando meu couro! Estou fazendo o trabalho de três e não recebo nada a mais por isso!

― Agradeça estar empregado, meu irmão, e fazendo trabalho de três. "Eles" foram postos para fora para garantir seu emprego. Pense nisso!

― Eu não fico aqui por muito tempo ― bati no bilhete em meu bolso ― Aqui está a minha liberdade, é hoje! Esse fim de semana eu fico rico, e nunca mais irei trabalhar para filho da puta nenhum! Comprarei uma mansão, viajarei o mundo todo, terei belas mulheres, um lindo carro e muitos empregados. Não vou viver essa vida de merda, ganhando salário de fome e pegando ônibus com um monte de gente suada, a vida toda. Comer feijão com arroz todos os dias, sem carne?  Eu não nasci para isso, cara, eu quero meu lugar ao sol.

― Está bem, vai sonhando! Mas aproveita e faz seu trabalho direitinho aí, tá? Até ganhar. Para não ficar desempregado também.

Não bastava ter que ouvir sermão do chefe quase todos os dias, ainda tinha que ouvir merda do otário do Zé. Ele até que era um bom sujeito, mas como colega de trabalho era o cachorrinho do patrão. "Bajulador, filho da p....!"  

Peguei minha papelada e enfiei a cara durante o dia todo, só parei para morder um sanduíche no boteco da esquina; coisa de meia hora. Durante à tarde, olhava cada segundo para o relógio. Seria à noite que sairia o resultado da loteria, eu estava ansioso! E a essa altura, já havia se espalhado, no escritório, que eu tinha jogado alto. E ainda corria um boato de que eu iria "correr pra dentro" do chefe, assim que acertasse os números sorteados. E eu nem sabia disso.

Foi assim que se formou um grupinho perto da TV do escritório.

Sorrisinhos e cochichos chamaram minha atenção. Parecia que rolava uma aposta à parte. Olhares furtivos, uma caixinha rodava de mão em mão. Isso já estava me deixando puto.

 Finalmente, o sorteio iria começar. E um dos meus falsos colegas resolvera dividir comigo o que estava acontecendo.

― Olha, a parada é o seguinte... Estamos divididos em dois grupos: os que não acreditam e os que acreditam que você acertará pelo menos dois números no sorteio. Nisso rola grana, e boa! Se você acertar pelo menos dois números, na loteria, terá uma parte comigo. Mas se você ganhar na loteria, faz um favor, amigo? Acerta um soco, bem dado, na cara do “Dr. Advogado”, e realizará o sonho de quase todos nós aqui. Você ganha na loto e a gente ganha com você.

E assim ficou acertado. O sorteio se tornou um grande evento. Puxei um papel e anotei os números jogados para que todo mundo pudesse acompanhar o sorteio.

Uma caixa de cerveja apareceu do nada. Todos estavam eufóricos com a brincadeira, se eu não ganhasse no sorteio uma boa parte dos funcionários ganhariam uma boa grana com minha falta de sorte, e se, por outro lado, eu acertasse pelo menos dois números da loteria, o outro grupo é que ganharia a aposta; mas se eu acertasse os seis números, eu levaria o prêmio máximo e o direito de socar o inimigo. 

A algazarra aumentou quando anunciaram o início do sorteio. O papel com os números ficou no centro, junto comigo e todos os demais atentos. O primeiro número sorteado eu tinha. A galera foi às alturas. Silêncio. O segundo número eu também tinha. Urros! Assobios! Uma galera já tinha a aposta no papo. O terceiro número... Meu coração palpitou mais forte! Ele estava ali... O quarto número eu me levantei, gritei com as mãos trêmulas de emoção! Nem ouvia mais os outros gritando; o quinto número me abalou de vez, quase arranco o couro cabeludo no desespero. No calor da emoção gritei a todo fôlego:

― Se eu ganhar, levo todo mundo comigo! Divido a metade do prêmio em partes iguais para todos, e abro uma agência onde todos poderão ser sócios!

De repente todo mundo parou de gritar e olharam uns para os outros. Silêncio total. E com os olhos vidrados na tela da tv, só se ouvia a respiração acelerada. Então, saiu o sexto número, e a galera explodiu! Eu fiquei parado sem acreditar, olhando os números em minhas mãos. Enquanto os caras pulavam e comemoravam o prêmio que eu tinha ganhado. Eu ainda não estava acreditando e olhava abobalhado para o pedaço de papel. No meio da algazarra o meu chefe entrou, queria saber o que estava acontecendo para tanta euforia.

― O que é isso? Virou zona? Ninguém mais trabalha?

― Poxa, chefe! Trabalhamos de segunda a segunda, sem folga nem no domingo. Meia horinha para ver o sorteio e reclama? ― resmungou João.

― Você tem o topete de me responder moleque? Está despedido!

― Qual é, chefia? ― Marco foi em socorro de João ― Você não pode despedir ele assim, sem uma razão comprovada?

— Está sentindo as dores por ele, é? Está despedido também.

Foi nessa hora que consegui sair do meu estado catatônico, e desferir um soco bem no meio do olho esquerdo do patrão, jogando-o no chão. A galera foi à loucura, novamente! Assim que o chefe recuperou a sanidade partiu para cima de mim.

― Vou te processar por isso e o colocarei na cadeia por agressão! Nunca mais conseguirá um emprego descente enquanto eu viver!

Eu sorri, um sorriso tímido, que foi se transformando em algo maior e maior, até atingir em algo diabólico. Com certeza eu estaria sendo acusado por ter agredido meu chefe, mas quem estava ligando para isso? Agora eu tinha dinheiro! Não ficaria nem um segundo atrás das grades. Pagaria os melhores advogados para me manter acima da lei.

― Vá se ferrar! ― foi o que eu disse a ele, com prazer. O filho da puta não pisaria mais em mim.

Saí pisando forte, sob aplausos da minha plateia dos novos amigos que consegui com o dinheiro que ainda nem tinha recebido. Apertos de mão, palmadas nas costas, me chamavam de Sr., Dr., o escambau!  Cadeiras foram jogadas fora do caminho, um outro jogou para cima a papelada de uma mesa, que virou confete pela janela aberta. Na loucura da comemoração, eu vi um computador ser jogado na parede e um cara virando na boca, o que parecia ser, uma garrafinha de cachaça, que ele trazia escondida dentro do paletó. 

A euforia foi aumentando cada vez mais, até que, na balburdia crescente, ouvi gritarem para pegar o chefe e dar-lhe uma lição. Mãos apareceram de todas as partes segurando o homem. Empurrões, encontrões e a turma do deixa disso chegou; e começaram a discutir. 

Eu ainda não acreditava, observava os acontecimentos como se tudo fosse um sonho. Minha vida mudaria dali para frente, eu nunca mais pegaria no trampo, nunca mais pegaria ônibus... Eu tinha ódio de ônibus! Todos os dias... Aquilo era uma tortura...

― Me mostra! ― pediu Zé.

― O que? ― perguntei meio que voltando de meus pensamentos.

― O canhoto. Quero ver com os meus próprios olhos o jogo que você ganhou... Me mostra!

Bati a mão no peito e enfiei o dedo no bolso da camisa e puxei o bilhete premiado...  Imagina a minha surpresa... Eu não havia jogado!

― Mané, cadê o jogo? Não diga que esqueceu de jogar essa merda?

Com meus olhos esbugalhados, finalmente lembrei o que tinha acontecido.

― No ônibus... Eu dormir na ida para casa e me esqueci de fazer o jogo!

De repente, todos pararam com a folia para escutar o que eu dizia.

― Como é isso, cara? Como assim, você esqueceu de fazer o jogo? Você disse a semana toda que tinha feito essa merda de jogo!

― Desculpe aí, galera! Eu dormi no ônibus e em vez de ir para a lotérica, acabei indo direto para casa. E depois de acordar, do balanço do ônibus, acreditei que tinha feito o jogo. Mas foi apenas um...  Sonho!

Jussara Pires






sexta-feira, 12 de junho de 2015

MEU MARIDO, MEU AMANTE, MEU ETERNO NAMORADO.




  Dormir e acordar juntos, o relacionamento, é claro, se desgasta. É preciso sempre regar as flores para elas desabrocharem sempre belas.
  
  Aproveitando o dia dos namorados, resolvi fazer-lhe uma surpresa. Mas para isso era preciso preparar o terreno.

  Peguei os filhos na escola e despachei para longe. Dei uma passadinha no mercado e comprei o necessário. Ainda passei em uma loja e comprei um presente. Cheguei em casa esbaforida, corri para deixar a casa limpa. Fiz as unhas, o cabelo e coloquei uma roupa bem bonita.

  Mesa posta, cama arrumada e no forno um assado. Olhei pela janela, cansada, tudo preparado para o jantar surpresa.

  Sentei esperando... O relógio na parede, pendurado, marcava o tempo em um tic-tac sincronizado. Passou dez minutos e nada. Passou meia hora, uma hora, depois de duas eu já estava desesperada. O tic-tac me atormentando. Bateu a ideia de que ele estava me traindo. "Será?" Mas se fosse isso...

  Já me vi pegando a dita cuja, eu levaria para ela as roupas dele sujas, principalmente as cuecas borradas. E é claro, deixaria em sua boca todos os dentes quebrados. Com ele eu pegaria mais pesado, tirava tudo, não deixaria nem um tostão em seu bolso, arrebentaria o carro, as roupas faria picados, contrataria até alguém para deixar o olho dele roxo.

  Eu estava furiosa só em pensar que ele estivesse me traindo. Mas ao ouvir a freada do carro na porta, dei a última olhada no espelho. Ele só deveria ter se atrasado um pouco, foi isso! Expectativa. Ansiosa. De braços abertos eu o recebi. Esperava pelo menos um abraço e quem sabe um beijo? Ele entrou, mas não deu nem boa noite, passou por mim e desmaiou no quarto.
   
   Fiquei arrasada!

  Passei a noite inteira chorando e o amaldiçoando à morte. Acabei dormindo com os olhos inchados e pensando na minha sorte: “ele deve estar com outra, só pode! Mas amanhã ele vai ver, eu tiro isso a limpo.”

   Despertei com alguém me chamando.

   ― Acorda, amor!

   Abri os olhos. Estava sentada na cadeira, a qual me sentei na sala. A casa estava coberta de pétalas, velas acesas e o jantar posto na mesa. E o meu amado, com um buquê de rosas, na mão, sorrindo. Olhei automaticamente para o relógio, só tinha passado vinte minutos! Eu tinha dormido cansada. Caí na gargalhada.

   ― Ué! De que está rindo, fiz algo de errado!

  ― Não, meu bem! Está tudo certo. Perfeito! Foi apenas um sonho... Um sonho não, um pesadelo!

   Meu marido, meu amante, meu eterno namorado... Mas com um olho aberto, quando o outro estiver fechado.

Jussara Pires