Dormir e acordar juntos, o
relacionamento, é claro, se desgasta. É preciso sempre regar as flores para elas
desabrocharem sempre belas.
Aproveitando o dia dos namorados, resolvi fazer-lhe uma surpresa. Mas para isso era preciso preparar o terreno.
Peguei os filhos na escola e
despachei para longe. Dei uma passadinha no mercado e comprei o necessário. Ainda passei em uma loja e comprei um presente. Cheguei em casa esbaforida,
corri para deixar a casa limpa. Fiz as unhas, o cabelo e coloquei uma roupa bem
bonita.
Mesa posta, cama arrumada e no forno
um assado. Olhei pela janela, cansada, tudo preparado para o jantar surpresa.
Sentei esperando... O relógio na
parede, pendurado, marcava o tempo em um tic-tac sincronizado. Passou dez minutos e
nada. Passou meia hora, uma hora, depois de duas eu já estava desesperada. O
tic-tac me atormentando. Bateu a ideia de que ele estava me traindo. "Será?" Mas
se fosse isso...
Já me vi pegando a dita cuja, eu
levaria para ela as roupas dele sujas, principalmente as cuecas borradas. E é
claro, deixaria em sua boca todos os dentes quebrados. Com ele eu pegaria mais pesado, tirava tudo, não deixaria nem um tostão em seu bolso, arrebentaria o carro, as
roupas faria picados, contrataria até alguém para deixar o olho dele roxo.
Eu estava furiosa só em pensar que ele estivesse me traindo. Mas ao ouvir a freada do carro na porta, dei a
última olhada no espelho. Ele só deveria ter se atrasado um pouco, foi isso! Expectativa. Ansiosa. De braços abertos eu o recebi. Esperava pelo menos um
abraço e quem sabe um beijo? Ele entrou, mas não deu nem boa noite, passou por
mim e desmaiou no quarto.
Fiquei arrasada!
Passei a noite inteira chorando e o
amaldiçoando à morte. Acabei dormindo com os olhos inchados e pensando na minha
sorte: “ele deve estar com outra, só pode! Mas amanhã ele vai ver, eu tiro isso
a limpo.”
Despertei com alguém me chamando.
― Acorda, amor!
Abri os olhos. Estava sentada na
cadeira, a qual me sentei na sala. A casa estava coberta de pétalas, velas acesas
e o jantar posto na mesa. E o meu amado, com um buquê de rosas, na mão, sorrindo. Olhei automaticamente para o relógio,
só tinha passado vinte minutos! Eu tinha dormido cansada. Caí na gargalhada.
― Ué! De que está rindo, fiz
algo de errado!
― Não, meu bem! Está tudo certo.
Perfeito! Foi apenas um sonho... Um sonho não, um pesadelo!
Meu marido, meu amante, meu eterno
namorado... Mas com um olho aberto, quando o outro estiver fechado.
Jussara Pires