sexta-feira, 12 de junho de 2015

MEU MARIDO, MEU AMANTE, MEU ETERNO NAMORADO.




  Dormir e acordar juntos, o relacionamento, é claro, se desgasta. É preciso sempre regar as flores para elas desabrocharem sempre belas.
  
  Aproveitando o dia dos namorados, resolvi fazer-lhe uma surpresa. Mas para isso era preciso preparar o terreno.

  Peguei os filhos na escola e despachei para longe. Dei uma passadinha no mercado e comprei o necessário. Ainda passei em uma loja e comprei um presente. Cheguei em casa esbaforida, corri para deixar a casa limpa. Fiz as unhas, o cabelo e coloquei uma roupa bem bonita.

  Mesa posta, cama arrumada e no forno um assado. Olhei pela janela, cansada, tudo preparado para o jantar surpresa.

  Sentei esperando... O relógio na parede, pendurado, marcava o tempo em um tic-tac sincronizado. Passou dez minutos e nada. Passou meia hora, uma hora, depois de duas eu já estava desesperada. O tic-tac me atormentando. Bateu a ideia de que ele estava me traindo. "Será?" Mas se fosse isso...

  Já me vi pegando a dita cuja, eu levaria para ela as roupas dele sujas, principalmente as cuecas borradas. E é claro, deixaria em sua boca todos os dentes quebrados. Com ele eu pegaria mais pesado, tirava tudo, não deixaria nem um tostão em seu bolso, arrebentaria o carro, as roupas faria picados, contrataria até alguém para deixar o olho dele roxo.

  Eu estava furiosa só em pensar que ele estivesse me traindo. Mas ao ouvir a freada do carro na porta, dei a última olhada no espelho. Ele só deveria ter se atrasado um pouco, foi isso! Expectativa. Ansiosa. De braços abertos eu o recebi. Esperava pelo menos um abraço e quem sabe um beijo? Ele entrou, mas não deu nem boa noite, passou por mim e desmaiou no quarto.
   
   Fiquei arrasada!

  Passei a noite inteira chorando e o amaldiçoando à morte. Acabei dormindo com os olhos inchados e pensando na minha sorte: “ele deve estar com outra, só pode! Mas amanhã ele vai ver, eu tiro isso a limpo.”

   Despertei com alguém me chamando.

   ― Acorda, amor!

   Abri os olhos. Estava sentada na cadeira, a qual me sentei na sala. A casa estava coberta de pétalas, velas acesas e o jantar posto na mesa. E o meu amado, com um buquê de rosas, na mão, sorrindo. Olhei automaticamente para o relógio, só tinha passado vinte minutos! Eu tinha dormido cansada. Caí na gargalhada.

   ― Ué! De que está rindo, fiz algo de errado!

  ― Não, meu bem! Está tudo certo. Perfeito! Foi apenas um sonho... Um sonho não, um pesadelo!

   Meu marido, meu amante, meu eterno namorado... Mas com um olho aberto, quando o outro estiver fechado.

Jussara Pires 

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